terça-feira, 11 de setembro de 2012

A LUXÚRIA- DO LIVRO: OS SETE PECADOS CAPITAIS (2010) FERNANDO MARTINS FERREIRA

A Luxúria A luxúria segundo definição do dicionário é um substantivo feminino derivado do latim Luxuria. Também é libertinagem, sensualidade, lascívia. Segundo a igreja católica é um desejo desordenado pelo prazer sexual. Os desejos e atos são desordenados quando não se conformam com o propósito divino, que é propiciar o amor mútuo entre os esposos e favorecer a procriação. Fere portanto o sexto mandamento (não pecarás contra a castidade). Através dela, se mata, se vende a dignidade humana, se trai, usa-se drogas, suja a alma e se corrompe a ganância, vaidade e ambição. Mas não está no sexo a sujeira em si, mas o uso que fazemos dele. Coisas como bigamia, incesto, pedofilia, prostituição, pornografia, zoofilia, fetichismo, bestialismo, sadismo (busca do prazer inflingindo dor ao parceiro) e masoquismo (busca do prazer recebendo punições que envolvem dor) são considerados desvios sexuais. Segundo o site Cristianismo por toda a vida, o pecado da luxúria é dividido em três: 1º - Atos consumados segundo a Natureza Atos que materialmente não se distinguem do ato matrimonial, mas formalmente, se distinguem porque a intenção não é a busca do prazer venéreo. Não há uma comunidade de vida; não há amor aos filhos que advenham dessa relação. Só se busca o prazer, acima de tudo; exclui-se a finalidade. Muitas vezes são atos em que se procura evitar a concepção com preservativos e anticonceptivos. 2º - Pecado da fornicação (relação pré-matrimonial) Na fornicação pode até haver amor, mas não há matrimônio. É a relação pré-matrimônio dos noivos. Excluem-se filhos com pílulas, portanto, é pecado. 3º Pecado do adultério No adultério, vai-se contra o matrimônio natural, entra outra pessoa naquela comunidade do homem e da mulher e arruína a família, desonra os filhos. É uma injustiça se for em pensamento, uma intenção (telefone namoro) será contra o 9º mandamento é pecado contra a natureza porque é uma desordem. Segue informando o site: “O outro pecado de luxúria são os atos consumidos contra a natureza, mais graves que a fornicação e o adultério, atos que não são para gerar e provocam um prazer venéreo, fora do ato sexual”. Onanismo: Pecado de Onam (Gêneses: 38, 9-10) – Deus condena Onam pela união voluntariamente interrompida. É contra a natureza buscar o prazer sem a relação completa. O onanismo também ocorre quando se usa instrumento contraceptivo ou preservativo. Impedem a relação normal por outros meios que não sejam os métodos naturais, impedindo a união das células femininas e masculinas. Sodomia: Homossexualismo Atos externos não consumados Maus atos podem provocar um prazer venéreo. Masturbação: ... na linha de tradição, constante, tanto no magistério da igreja como o senso moral dos fieis afirmam sem hesitação que a masturbação é um ato intrínseco e gravemente desordenado... Esses pecados são contra a natureza humana, quando uma pessoa se deixa levar, torna-se inadequado para o amor e para a educação dos filhos. Em relação à pornografia o site nos ensina: “A pornografia consiste em retirar atos sexuais, reais ou simulados da intimidade dos parceiros para exibi-los a terceiros de forma deliberada... São revistas, filmes, programas e algumas novelas... Maus pensamentos e lembranças também são pecados contra a castidade”. Asmodeus é considerado um dos príncipes, do inferno, subordinado a Lúcifer, e é o demônio que rege a Luxúria. Veja agora o que o monge Evágro Pôntico (ou do Ponto), aquele mesmo que como já vimos, listou os oito pecados capitais no século IV, escreveu para os seus irmãos monges, sobre a luxúria. É extremamente interessante. “A moderação gera a regra enquanto que a gula é a mãe do desenfreio; o óleo alimenta a luz da lamparina e o frequentar mulheres atiça a chama do prazer. A violência da onda se desencadeia contra o mercador mal ancorado, assim como o pensamento da luxúria, se desencadeia sobre a mente do imoderado. A luxúria virá aliada à saciez, lhes concederá licença, se juntará aos adversários e combaterá, finalmente do lado dos inimigos. Permanece invulnerável às flechas inimigas aquele que ama a paz interior e a tranquilidade de recolhimento; ao contrário, aquele que se mistura com a multidão recebe golpes continuamente. O olhar para uma mulher é semelhante a um dardo venenoso: fere a alma, nos injeta veneno e, quanto mais perdura, tanto mais espalha a infecção. Aquele que busca defender-se destas flechas se mantém alheio das multitudinárias reuniões públicas e não divaga com a boca aberta nos dias de festa; é muito melhor ficar em casa, passando o tempo orando, do que fazer a obra do inimigo crendo honrar as festas. Evita a intimidade com as mulheres se realmente desejas ser sábio e não lhes dê liberdade para falar-te, nem confiança. Com efeito, no início tem ou simulam uma certa cautela; porém a seguir, ousam fazer tudo descaradamente. Na primeira aproximação, mantém o olhar baixo, falam docemente, choram comovidas, tratam seriamente, suspiram como amargura, fazem perguntas sobre a castidade e escutam com atenção; na segunda vez, levantam um pouco mais a cabeça; na terceira vez, aproximam-se sem muito pudor; tu sorris e elas se põem a rir desafiadoramente; a seguir, se embelezam e se te mostram com ostentação; seus olhares passam a anunciar ardor, levantam as sobrancelhas e os olhos, desnudam o pescoço e abandonam todo o corpo à fraqueza, pronunciam frases abrandadas pela paixão te dirigem uma voz fascinante ao ouvido até apoderarem-se por completo de tua alma. Ocorre que estas ciladas te encaminham à morte e estas redes entrelaçadas te arrastam à perdição. Portanto, não te deixas enganar sequer por aquelas que se servem de discursos discretos; nestas, com efeito, se oculta o maligno veneno das serpentes”. Como era sábio esse Monge hein!? A luxúria na literatura:  Decamerão de Giovanni Bocacio (1348-1353). A obra é considerada um marco literário na ruptura entre a moral medieval em que se valoriza o amor espiritual e o início do realismo, iniciando o registro de valores terrenos, que veio redundar no humanismo.  A Casa dos Budas Ditosos de João Ubaldo Ribeiro (Editora Objetiva) O livro é narrado por uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia, falando de sua própria vida, de seus amores, e de como jamais se furtou de viver intensamente – com todos os prazeres e sem respingos de culpa – as infinitas possibilidades do sexo. Ao falarmos de luxúria na literatura não podemos deixar de citar dois grandes escritores brasileiros, são eles: Jorge Amado e Nelson Rodrigues. Suas obras são sensuais, provocantes e fortes. No primeiro, a sensualidade é morena, faceira, quente, envolvente; no segundo crua, violenta, passional.  Jorge Leal Amado Nasceu em 10/08/1912, na fazenda Auricídia, município de Ilhéus-BA, mas foi registrado em Itabuna. Faleceu em 06/08/2001. Foi romancista, contista, poeta, dramaturgo, cronista e crítico literário. Nos deixou 49 obras, todas elas voltadas para temas nacionais de raízes. Suas obras trazem os problemas, as injustiças sociais, o folclore, a política, crenças e tradições, tudo isso misturado na grande sensualidade do povo brasileiro. Essa sensualidade salta aos olhos nas páginas das obras: - Tenda dos milagres, Capitães de areia, Jubiabá, O compadre de Ogun, Teresa Batista Cansada de guerra, Dona Flor e seus dois maridos, Gabriela cravo e canela, Tieta do agreste. Não por acaso, suas principais obras (três últimas) receberam o nome de mulher. Seus livros foram traduzidos em 55 paises e 49 idiomas. Frases de Jorge Amado: “Para mim, o sexo sempre foi uma festa. Aos 82 anos, a festa é muito diferente do que era aos 20, aos 50, mesmo aos 60: é uma festa que é feita da experiência, do refinamento.” “A vida me deu mais do que pedi e mereci. Não me falta nada. Tenho Zélia e isso me basta.” “Na realidade, o tema da infelicidade tem engendrado montanhas de livros horríveis, umas masturbações insuportáveis.” “Acho que você não deve fazer nada que não o divirta, lhe dê prazer. Também não deve exercer um ofício, uma profissão para a qual é incompetente.”  Nelson Falcão Rodrigues: Nasceu na cidade de Recife em 23/08/1912. Foi poeta, escritor e dramaturgo. Retratou com fidelidade o cotidiano da sociedade, as tragédias domésticas, enfim, “a vida como ela é”, porém com muita sensualidade. Escreveu 16 peças para teatro e sua obra completa abrange 04 volumes que foram divididos pelo crítico de arte Sabato Magaldi dessa forma: Peças Psicológicas: - A mulher sem pecado - Vestido de noiva - Valsa nº 06 - Viúva porém, honesta - Anti-Nelson Rodrigues Peças Místicas: - Anjo Negro - Álbum de família - Senhora dos afogados - Doroteia Tragédias Cariocas I: - Boca de ouro - A falecida - Os sete gatinhos - Perdoa-me por me traíres Tragédias Cariocas II: - O beijo no asfalto - Bonitinha, mas ordinária - Toda nudez será castigada - A serpente Escreveu também diversos romances entre eles: - Meu destino é pecar - Escravos do amor - Núpcias de fogo - A mulher que amou demais - Asfalto selvagem (ficou mais conhecido como: “Engraçadinha”) - O casamento Escreveu também diversos contos. Entre eles: - Elas gostam de apanhar - Cem cartas escolhidas - A vida como ela é - A dama do lotação e outros contos e crônicas - O homem fiel Crônicas: - A cabra vadia - O óbvio ululante: primeiras confissões - A menina sem estrela - A mulher do próximo Frases de Nelson Rodrigues: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.” “A educação sexual só deveria ser dada por um veterinário”. “Os padres exigem o fim do celibato. Portanto, odeiam a castidade. Imaginem um movimento de meretrizes a favor da castidade. Pois tal movimento não me espantaria mais do que o motim dos padres contra a própria.” “As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado”. “Qualquer indivíduo é mais importante que toda a Via Láctea.” “Os padres querem casar. Mas quem trai um celibato de 2 mil anos há de trair um casamento em quinze dias.” O interessante caro leitor, é que ambos os escritores eram apaixonados por suas mulheres. Jorge Amado por sua Zélia Gattai e Nelson Rodrigues por Elza Bretanha. Nelson morreu no dia 21 de dezembro de 1980 no Rio de Janeiro, no fim da tarde. Ele faria treze pontos na loteria esportiva em um “bolão” com o seu irmão Augusto e seus amigos do “O Globo”. Dois meses após morte, Elza cumpriu o pedido de ainda em vida: gravar o seu nome ao lado dele na lápide, sob a inscrição: “Unidos para além da vida e da morte. É só”. Luxúria na poesia Escolhi uma para representar as demais que falam do mesmo tema. É um poema da poetiza portuguesa Antônia Ruivo e se chama: Luxúria tu és rainha. * Luxúria tu és rainha: Luxúria erva daninha Do prazer és rainha A culpa não é tua É minha… Encontro-me nua E… crua Envolta na lua Prazeres carnais E outros que mais Luxúria, Estandarte em arrais Abres as portas Aos vícios mundanos Dos pobres humanos Insanos… Masturbação dos profanos Desvios morais Dos seres normais E, outros que tais Luxúria, Vendavais, em ais Tantos prazeres consensuais Nos pecados capitais… Antónia Ruivo Provérbio: Há um provérbio de um autor anônimo que trata a luxúria com muita particularidade. É para mim um hino de louvor à mulher e se chama: Não sei se é luxúria... mas... * Não sei se é luxúria... mas... Toda a mulher tem suas delícias... Cada parte de seu corpo tem um aroma inebriante... Não há fruta que tenha a pele mais macia... Não há pele que seja mais agradável ao toque do lábios que a da mulher... A mulher tem cabelos onde um homem poderia se perder eternamente sem nunca mais querer ser encontrado... O seu corpo tem o calor mais perfeito que conforta a alma... Seus olhos são jóias inestimáveis... Sua voz é um doce encanto, que embala os ouvidos mais brutos... Seus traços suaves e suas mãos delicadas são o desejo dos anjos... Deus não é homem, certamente Deus é mulher. Anseio pelo dia que possa me perder no mar de suas carícias. Ass. um humilde devoto. Um amigo querido, referendo-se à luxúria disse-me certa vez: “Se eu deixar de comete-la não sei se irei para o céu, pois terei que observar os outros seis pecados capitais. Por via de dúvidas, fico com a luxúria, pois é o único que me leva ao céu, aqui, ainda na terra”. Que heresia.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A GULA - DO LIVRO:OS SETE PECADOS CAPITAIS (2010) FERNANDO MARTINS FERREIRA

A Gula “A gula é uma fuga emotiva, um sinal de que alguma coisa nos está a devorar”. P. de Vries A gula é o excesso de comer, beber e tem como característica o engolir e não digerir, é também tudo aquilo que comemos depois de já estarmos satisfeitos. Na sua simbologia maior significa voracidade. O guloso come a toda hora e além do necessário. Para alguns o prazer de comer passa a ser um fim em si mesmo e tem nisso sua satisfação e se frustram quando a refeição não é suculenta e farta. A gula é às vezes irresistível pois não podemos nos esquecer de que o prazer oral é o primeiro prazer que experimentamos, pois é pela boca que trocamos com a mãe os primeiros contatos, que nos alimentamos para viver, que sentimos as primeiras emoções e que experimentamos sensações diversas. A gula portanto é compensatória, primitiva, e um recurso para abafar nossas frustrações. Nos traz a sensação de conforto, pois nos lembra a amamentação, o aconchego do seio materno. Segundo a escritura norte-americana, Francise Prose em seu livro “Gula”, de “todos os sete pecados capitais, a gula talvez tenha a história mais intrigante e paradoxal”. “As maneiras como o pecado tem sido encarado evoluíram de acordo com as obsessões mutantes da sociedade e da cultura”. – Realmente, pois na Roma Antiga a gula era considerada normal pois os romanos festeiros como eram, participavam às vezes de mais de uma festa por dia. Caso não se comesse a fartar-se seria considerado uma ofensa para o anfitrião. Existiam nas residências até mesmo a figura do vomitódromo, pois comiam, provocavam o vômito e comiam novamente. Isso era o usual. Diversos filmes de época retratam isso. Já no renascimento comer demasiadamente significava incorrer em uma idolatria que afastava as pessoas de Deus. Após a revolução industrial sucumbir a tentação da gula passou a ser sinal de prosperidade. O fato é que comer é necessário à sobrevivência então como estabelecer limites entre a alimentação ideal e a gula? Do “Verba Seniorum” (Sabedoria dos Antigos) nos vem uma lição: - “O abade pastor passeava com o monge de Sceta, quando foram convidados para comer. O dono da casa, honrado pela presença dos padres, mandou servir o que havia de melhor. Entretanto o monge estava no seu período de jejum. Quando a comida chegou, pegou uma ervilha e mastigou-a lentamente e nada mais comeu. Na saída, o abade pastor conversou com ele: - Irmão quando for visitar alguém, não torne a sua santidade uma ofensa. Da próxima vez que estiver em jejum, não aceite convites para jantar”. A igreja prega o comer sem prazer, evitando-se o culto dos sentidos que pode nos levar ao pecado. Conta-se que São Francisco de Assis colocava cinzas sobre a comida para eliminar qualquer vestígio de sabor. O ato de comer, o pecado foi levado tão a sério que as santas Catarina de Sena, Clara de Assis e Verônica, chegaram a ser advertidas pelos membros do clero por seus jejuns exagerados. Afirmavam esses, que elas podiam incorrer no pecado da soberba pelo “heroísmo” de tamanha penitência. A Bíblia em Eclesiástico 37: 32-34 nos adverte: “Não sejas ávido em banquete algum e não te lances sobre todos os pratos. Pois em muita comida entra a doença e a intemperança conduz à cólica. Pela gula insaciável muitos perecem quem porém, é sóbrio, prolonga a vida”. Sábia Bíblia, pois a gula é a porta aberta para a obesidade que nos traz doenças como hipertensão, doenças cardiovasculares, cérebro-vasculares, diminuição do HDL (colesterol bom), diabetes, infertilidade entre outras. Devemos dizer não à gula, ao desejo incontrolável por comida equilibrando-nos e nos impondo limites, assegurando o domínio da inteligência sobre os instintos e dominando assim nossas vontades e não sendo dominado por elas. Gula é o resultado final da baixo estima, insegurança, depressão e tristeza. Agora veja o caso a seguir: Na França existe uma associação denominada “Associação dos Assuntos da Gula”. Era liderada pelo que foi considerado o maior padeiro de todos os tempos Lionel Poilane (morto recentemente em um desastre de helicóptero). São afiliados dessa associação os grandes chefs da cozinha francesa e internacional, entre eles o famoso Paul Bocuse, escritores e celebridades. Pois bem, a associação, hoje liderada pela filha de Lionel encaminhou ao Papa João Paulo II uma petição para que ele retirasse a gula dos pecados capitais. Você caro leitor acredita que a igreja o retirará? Eu não.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A AVAREZA - DO LIVRO: "OS SETE PECADOS CAPITAIS"(2010)-FERNANDO MARTINS FERREIRA

A Avareza “O avarento é o mais leal depositário dos bens de seus herdeiros” Marquês de Marica A avareza simboliza o desejo desordenado pelos bens terrestres. Segundo o conceito cristão, o homem se preocupa em acumular bens que não consegue levar para o céu e que conduz à idolatria, por tratar algo como se fosse de Deus. E a cobiça dos bens materiais e dinheiro entende-se como a ambição por riquezas. É também o desejo veemente, intenso e violento de possuir algo. O avaro tem apego excessivo a alguma coisa levado pelo grande medo de faltar, é sinônimo de ganância ou seja, vontade exagerada de posse. Para o avaro, os bens materiais deixam se ser um meio para aquisição de bens e serviços para a satisfação de necessidades, mas um fim em si. No conceito popular é o muquirana, o pão duro, o sovina, o unha de fome, o mão de vaca, o Nhônhô Correia (personagem de uma novela da TV Globo). O personagem Tio Patinhas da Disney, personifica o quadro, se lembra dele? O “avarento” renega aos próprios desejos e necessidades para apenas ter uma possibilidade de gozar de fato, de poder assim possuir um pouco mais de dinheiro em sua conta bancária. Não liga a mínima para valores imateriais como cultura, arte, amor, inteligência, beleza, pois são elementos abstratos e não podem ser transformados em dinheiro. Não sabem apreciar, mas às vezes usam desses valores para se enriquecer um pouco mais. Veja o exemplo a seguir: Conta-se que nos alpes italianos existia um pequeno vilarejo que se dedicava à cultura de uvas para a produção de vinho. Uma vez por ano acontecia uma grande festa para comemorar o sucesso da colheita e se fazer novos negócios. Para lá se dirigiam comerciantes e exportadores de vinho da região. A tradição exigia que nesta festa cada morador do vilarejo trouxesse um garrafão do seu melhor vinho para colocar dentro de um grande barril que ficava na praça central. Assim todos se serviam do vinho, festejavam e faziam grandes negócios. Porém, um dos moradores pensou: “Por que deverei levar um garrafão do meu melhor vinho? Levarei água pois no meio de tanto vinho bom o meu não fará falta. Guardarei o meu e o venderei por um bom preço e assim aumentarei um pouco mais a minha fortuna”. Assim pensou e assim fez o avarento produtor. Conforme o costume, em determinado momento, todos se reuniram na praça, cada um com sua caneca, para provar aquele vinho, cuja fama se estendia muito além da fronteira do país. Contudo, ao abrir a torneira um absoluto silêncio tomou conta da multidão. Do barril saiu ... água! A ausência de minha parte não fará falta foi o pensamento de cada um dos produtores. O escritor Ralph Waldo Emerson, em “A conduta para vida”, diz sabiamente: - “Há homens nascidos para possuir e que sabem vivificar tudo que possuem. Outros não o sabem; a sua riqueza falta graça, parece um compromisso firmado com o seu caráter. Dir-se-ia que roubam os próprios dividendos. Deveriam possuir aqueles que sabem administrar, não os que acumulam e dissimulam, não aqueles que quanto mais possuem, mais mendicantes se mostram, porém aqueles cuja atividade da trabalho a maior número, abre caminho para todos”. Segundo São Tomás de Aquino, o grande filósofo cristão, a avareza possui sete filhos: a traição, a fraude, a mentira, o perjúrio, a inquietude, a violência e a dureza do coração. Segundo ele a avareza comporta atitudes, uma das quais é o excesso de apego ao que se tem, do qual procede a dureza do coração, o ser desumano que se opõe à misericórdia, porque evidentemente o avaro endurece o seu coração e não se vale de seu bens para socorrer misericordiosamente o próximo. Inquietude: na ânsia de amealhar bens, o homem se torna preocupado, desconfiado e inquieto. Violência: Pois na ânsia de amealhar bens alheios ele pode servir-se da força ou violência. E se ele engana alguém para lucrar, seria mentira e se essas palavras enganosas forem acompanhadas de juramento será perjúrio. Por amor ao dinheiro muitos praticam a mentira, a fraude. Quantos quilos que só possuem 900 gramas, quantos litros que só tem 980 ml, quantos produtos falsificados (combustível, entre tantos). Quanta trapaça, quanta enganação em nome da avareza. Todo avarento é pobre, vive sentado sobre o seu dinheiro, não gasta nada, passa até privações, não oferece nada a ninguém e guarda seus bens com a ferocidade de um animal selvagem. Ele com certeza é um infeliz pois vive eternamente em guarda, com medo de perder o seu rico dinheirinho ou outro bem que possui. Desconfia de tudo e de todos, achando que as pessoas se aproximam dele somente com a finalidade de extorquir-lhe algo. Não existe a avareza somente com bens e dinheiro, existem os avaros de carinho, de solidariedade, o avaro de amor, pois o avaro não conjuga e até mesmo odeia o verbo dar. O pecado da avareza não é uma prerrogativa dos ricos e endinheirados. Existem também os muitos pobres, avarentos de coração, secos, incapazes de um beijo, de um afago, muito menos de uma lágrima, pois esses gestos transmitem amor, e eles não sabem e têm medo de se doar. Pessoas que dão excessivo valor aos bens materiais precisam acreditar que são superiores para compensar um profundo complexo de inferioridade e crença na falta de sentido em que vivem. Para Carlos Heitor a avareza é: “O excesso de amor aos bens materiais. Nos dias atuais o neoliberalismo é avaro quando prega o lucro acima de tudo. É a avareza em estado exacerbado”.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

"A PREGUIÇA" DO LIVRO "OS SETE PECADOS CAPITAIS" (2010)-FERNANDO MARTINS FERREIRA

A PREGUIÇA “A preguiça anda tão devagar que a miséria facilmente a alcança”. Benjamim Franklin A preguiça é definida como aversão ao trabalho, negligência, indolência, pachorra, moleza, morosidade e lentidão para fazer qualquer tarefa. O preguiçoso sente um aborrecimento natural pelo trabalho do dia-a-dia e tem um apego enorme ao descanso que o leva a imitir suas obrigações ou descuidá-las. O preguiçoso é na verdade uma pessoa que não gera expectativa e sempre desvia de qualquer culpa que possa recair sobre ele. É portanto, sempre liso, escorregadio, é aquela pessoa que deixa sempre suas tarefas, os seus afazeres, para depois. É adepto do desculpismo e justifica sua preguiça com desculpas esfarrapadas do tipo: – “Amanha eu faço” – passam-se os dias e ele é cobrado pelo que não fez e ele arranja mais desculpas. Existem outras: – “Não posso, estou sem tempo” – já reparou que o preguiçoso está sempre sem tempo? - “Não fiz porque não estou me sentindo bem”: Porque não procura um médico para se tratar? - “Durmo muito porque estou cansado”: Dorme dorme e nunca está descansado, sempre precisa dormir mais. - “Não fiz o relatório porque não deu tempo”: Não deu tempo porque empurrou a tarefa, porque é desorganizado e não administra o seu tempo. - “Nossa! Me esqueci completamente”: Esqueceu-se? Porque não anotou? - “Amanha farei essa arrumação”: Sempre amanhã, engana a si próprio. Note que o preguiçoso está sempre fazendo os outros esperar porque não se organiza e não tem respeito com as pessoas. Chega sempre atrasado aos compromissos sofrendo com isso admoestações diversas. Está sempre perdendo objetos, não sabe nunca onde deixou aquela chave, os óculos, um livro ou a carteira. Desorganizado que é, perde precioso tempo na busca dos objetos. Não é adepto do abriu-fechou, acendeu-apagou, sujou-limpou. Podemos dizer que a preguiça se subdivide em preguiça espiritual e preguiça corporal. A primeira é a falta de ânimo, de coragem para o cumprimento dos deveres religiosos na oração e o segundo é mesmo o desleixo de nossas obrigações corporais. Segundo o Budismo, a preguiça é um dos principais obstáculos ao despertar da nossa alma. Ela se manifesta de três maneiras: a) A preguiça do conforto, que nos faz permanecer sempre no mesmo lugar; b) A preguiça do coração quando nos sentimos desencorajados e desestimulados; c) A preguiça da amargura quando nada mais importa e já não somos parte deste mundo. Seja qual for a religião, a preguiça é algo que deve ser combatido e pode ter modificações psicológicas ou fisiológicas no indivíduo. Portanto, a pessoa acometida de preguiça necessita estudar as circunstancias em que se encontra e traçar objetivos de modo que seja conveniente para si e para os demais. O que pode causar a preguiça? - Frio: O corpo necessita de movimento para manter-se aquecido. - Noite mal dormida: O sono faz com que as pessoas tenham seus movimentos e raciocínios limitados. - Ambiente calmo: Estimulam a indisposição e dão sono. - Má alimentação: Não gera energia suficiente para o organismo e dá moleza e indisposição. - Acúmulo de serviço: Faz com que a pessoa adie suas responsabilidades. - Excesso de comida ou bebida: Provoca a moleza e o sono. E no que resulta a preguiça? - Em desânimo: A pessoa não tem atitude de mudar o comportamento - Em fracasso: A pessoa não tem vontade de realizar nada e se torna ultrapassado, não conseguindo “prosperar” na vida pessoal e profissional. - Em problemas de saúde: Quem não se movimenta tem mais chances de contrair doenças. - Em necessidades: Aquele que não trabalha necessita de outros para manter suas atividades. A preguiça no entanto, pode ser contornada se o indivíduo procurar ter uma vida mais saudável de modo a melhorar sua indisposição através de uma alimentação adequada. É recomendável também a mudança de hábitos trocando-os por outros que lhe tragam maior satisfação além de organizar melhor o seu tempo, o espaço onde vive e a vida. Enfim, procurar coisas que dê satisfações e mais sentido à vida. O escritor espiritualista Divaldo Franco em seu livro “Conflitos Existenciais” recomenda contra a preguiça: a) Exercício, movimentação, afim de preservar a própria estrutura física, b) Exercitar a mente com pensamentos saudáveis, c) Pensar é uma benção. Auxilia a capacidade do raciocínio afim de elaborar projetos que mantenham o entusiasmo e a alegria de viver, d) Terapia para a preguiça, e) Interrogar-se por que estou sofrendo? Até quando suportarei essa situação? O despertar terapêutico, segundo Divaldo Franco, começa a surgir com a vergonha pelo estado que se encontra, dando início ao labor de renovação interna. Surge então, o natural desejo para a recuperação passando a ver a preguiça como enfadonha e monótona. Conta uma história da tradição oral que: Assim que morreu, José encontrou-se num belíssimo lugar rodeado de conforto e beleza. Um sujeito vestido de branco aproximou-se dele e disse: - “José, você tem o direito de pedir o que quiser: Qualquer alimento, prazer ou diversão”. Encantado, José aproveitou e fez tudo o que queria fazer durante a vida e não fez. Bebidas, mulheres lindas, festas intermináveis e jogos. A vida lhe sorria de domingo a domingo, mas acontece que até dos excessos de prazeres, o homem se cansa. E depois de muitos anos, procurou o sujeito de branco: - Já experimentei tudo o que tinha vontade, disse. - Preciso agora de um trabalho, o menor que seja, para me sentir útil. - Sinto muito – Disse o sujeito de branco – mas esta é a única coisa que não posso conseguir. Aqui não há trabalho. - Que isso? – gritou surpreso o José – Passar a eternidade morrendo de tédio? Está louco? Não quero. Prefiro mil vezes estar no inferno. O homem de branco aproximou-se e disse em voz baixa: - E onde o senhor pensa que está? Não devemos, no entanto, confundirmos repouso com preguiça. O repouso é necessário e é o momento em que se processa o importante trabalho do armazenamento da força vital dentro de nós.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A PREGUIÇA - DO LIVRO ''OS SETE PECADOS CAPITAIS" DE FERNANDO MARTINS FERREIRA

“A preguiça anda tão devagar que a miséria facilmente a alcança”. Benjamim Franklin A preguiça é definida como aversão ao trabalho, negligência, indolência, pachorra, moleza, morosidade e lentidão para fazer qualquer tarefa. O preguiçoso sente um aborrecimento natural pelo trabalho do dia-a-dia e tem um apego enorme ao descanso que o leva a imitir suas obrigações ou descuidá-las. O preguiçoso é na verdade uma pessoa que não gera expectativa e sempre desvia de qualquer culpa que possa recair sobre ele. É portanto, sempre liso, escorregadio, é aquela pessoa que deixa sempre suas tarefas, os seus afazeres, para depois. É adepto do desculpismo e justifica sua preguiça com desculpas esfarrapadas do tipo: – “Amanha eu faço” – passam-se os dias e ele é cobrado pelo que não fez e ele arranja mais desculpas. Existem outras: – “Não posso, estou sem tempo” – já reparou que o preguiçoso está sempre sem tempo? - “Não fiz porque não estou me sentindo bem”: Porque não procura um médico para se tratar? - “Durmo muito porque estou cansado”: Dorme dorme e nunca está descansado, sempre precisa dormir mais. - “Não fiz o relatório porque não deu tempo”: Não deu tempo porque empurrou a tarefa, porque é desorganizado e não administra o seu tempo. - “Nossa! Me esqueci completamente”: Esqueceu-se? Porque não anotou? - “Amanha farei essa arrumação”: Sempre amanhã, engana a si próprio. Note que o preguiçoso está sempre fazendo os outros esperar porque não se organiza e não tem respeito com as pessoas. Chega sempre atrasado aos compromissos sofrendo com isso admoestações diversas. Está sempre perdendo objetos, não sabe nunca onde deixou aquela chave, os óculos, um livro ou a carteira. Desorganizado que é, perde precioso tempo na busca dos objetos. Não é adepto do abriu-fechou, acendeu-apagou, sujou-limpou. Podemos dizer que a preguiça se subdivide em preguiça espiritual e preguiça corporal. A primeira é a falta de ânimo, de coragem para o cumprimento dos deveres religiosos na oração e o segundo é mesmo o desleixo de nossas obrigações corporais. Segundo o Budismo, a preguiça é um dos principais obstáculos ao despertar da nossa alma. Ela se manifesta de três maneiras: a) A preguiça do conforto, que nos faz permanecer sempre no mesmo lugar; b) A preguiça do coração quando nos sentimos desencorajados e desestimulados; c) A preguiça da amargura quando nada mais importa e já não somos parte deste mundo. Seja qual for a religião, a preguiça é algo que deve ser combatido e pode ter modificações psicológicas ou fisiológicas no indivíduo. Portanto, a pessoa acometida de preguiça necessita estudar as circunstancias em que se encontra e traçar objetivos de modo que seja conveniente para si e para os demais. O que pode causar a preguiça? - Frio: O corpo necessita de movimento para manter-se aquecido. - Noite mal dormida: O sono faz com que as pessoas tenham seus movimentos e raciocínios limitados. - Ambiente calmo: Estimulam a indisposição e dão sono. - Má alimentação: Não gera energia suficiente para o organismo e dá moleza e indisposição. - Acúmulo de serviço: Faz com que a pessoa adie suas responsabilidades. - Excesso de comida ou bebida: Provoca a moleza e o sono. E no que resulta a preguiça? - Em desânimo: A pessoa não tem atitude de mudar o comportamento - Em fracasso: A pessoa não tem vontade de realizar nada e se torna ultrapassado, não conseguindo “prosperar” na vida pessoal e profissional. - Em problemas de saúde: Quem não se movimenta tem mais chances de contrair doenças. - Em necessidades: Aquele que não trabalha necessita de outros para manter suas atividades. A preguiça no entanto, pode ser contornada se o indivíduo procurar ter uma vida mais saudável de modo a melhorar sua indisposição através de uma alimentação adequada. É recomendável também a mudança de hábitos trocando-os por outros que lhe tragam maior satisfação além de organizar melhor o seu tempo, o espaço onde vive e a vida. Enfim, procurar coisas que dê satisfações e mais sentido à vida. O escritor espiritualista Divaldo Franco em seu livro “Conflitos Existenciais” recomenda contra a preguiça: a) Exercício, movimentação, afim de preservar a própria estrutura física, b) Exercitar a mente com pensamentos saudáveis, c) Pensar é uma benção. Auxilia a capacidade do raciocínio afim de elaborar projetos que mantenham o entusiasmo e a alegria de viver, d) Terapia para a preguiça, e) Interrogar-se por que estou sofrendo? Até quando suportarei essa situação? O despertar terapêutico, segundo Divaldo Franco, começa a surgir com a vergonha pelo estado que se encontra, dando início ao labor de renovação interna. Surge então, o natural desejo para a recuperação passando a ver a preguiça como enfadonha e monótona. Conta uma história da tradição oral que: Assim que morreu, José encontrou-se num belíssimo lugar rodeado de conforto e beleza. Um sujeito vestido de branco aproximou-se dele e disse: - “José, você tem o direito de pedir o que quiser: Qualquer alimento, prazer ou diversão”. Encantado, José aproveitou e fez tudo o que queria fazer durante a vida e não fez. Bebidas, mulheres lindas, festas intermináveis e jogos. A vida lhe sorria de domingo a domingo, mas acontece que até dos excessos de prazeres, o homem se cansa. E depois de muitos anos, procurou o sujeito de branco: - Já experimentei tudo o que tinha vontade, disse. - Preciso agora de um trabalho, o menor que seja, para me sentir útil. - Sinto muito – Disse o sujeito de branco – mas esta é a única coisa que não posso conseguir. Aqui não há trabalho. - Que isso? – gritou surpreso o José – Passar a eternidade morrendo de tédio? Está louco? Não quero. Prefiro mil vezes estar no inferno. O homem de branco aproximou-se e disse em voz baixa: - E onde o senhor pensa que está? Não devemos, no entanto, confundirmos repouso com preguiça. O repouso é necessário e é o momento em que se processa o importante trabalho do armazenamento da força vital dentro de nós.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

VAI SAIR HOJE? TEXTO DO ESCRITOR FLAVIO MARCUS DA SILVA

Vai sair hoje? O ano era 1987. O local, o pátio de um colégio cinzento, onde adolescentes jogavam bola,conversavam ou ficavam parados, em silêncio, ao redor das quadras de vôlei, peteca efutebol, esperando terminar o horário da Educação Física. O tempo não passava naquelecolégio. Cada aula parecia durar uma eternidade, e quando o último sinal tocava, eu ia embora, feliz da vida, pensando: “Agora eu vou fazer o que eu gosto”. Mas no pátio daquele colégio triste, numa manhã de quinta-feira do ano de 1987, uma adolescente baixinha perguntou à sua colega: “Você vai no BEB&RANGO no final de semana?” E a outra respondeu: “Acho que vou”. As duas tinham doze anos e já “saíam”. Sair. Este era o verbo mais chique daquele pátio, pois significava “Eu aproveito a vida, sou importante, faço parte da sociedade”: “Eu saio”. E no BEB&RANGO, ao final da tarde(não sei se de sábado ou de domingo), aquelas meninas ficavam andando pra lá e pra cá, de narizes empinados, rindo e conversando com os garotos mais velhos, de 16, 17 ou 18 anos, se achando o máximo dos máximos. Aos 12 anos eu não saía. Nem aos 13. Nem aos 14. Até o início da década de 90 eu praticamente não existia para o mundo exterior, somente para a minha família, que às vezes se preocupava com o fato de eu ser tão introspectivo, tão mergulhado em meu mundo interior: este sim maravilhosamente turbulento e confuso, cheio de cores, ao contrário do universo desbotado e distante daquele colégio e daquele bar tão popular em Pará de Minas na segunda metade da década de 80. Não sair significava não existir, não viver. “Você não sai, não aproveita a vida”, costumavam dizer. Eu ouvia isso, mas não entendia, porque eu vivia e aproveitava a vida intensamente, do meu jeito. Meu maior prazer, quando eu me via livre daquelas aulas insuportáveis, era a leitura. Eu praticamente lia um livro por tarde, deitado no grande sofá da sala de visitas da minha casa, sem ninguém para me incomodar. Eu me desligava do mundo exterior e mergulhava nas histórias com um prazer imenso, avassalador. Eu sentia minha alma pulsar, agradecendo aquelas palavras e frases que me conduziam por cenários incríveis, em histórias emocionantes, contadas por mestres como Marcos Rey, Lúcia Machado de Almeida, Stella Carr, Júlio Verne e Agatha Christie. E no início dos anos 90, quando eu descobri autores como Rubem Fonseca e Edgar Allan Poe, e me recusava a trocá-los por uma saída no Geraldinho sábado à noite, a pressão paraeu sair aumentou, porque eu TINHA que beber, TINHA que ficar com as meninas e provar um monte de coisas para um monte de gente. E eu saía. E era como voltar àquele colégio e ter que assistir sem vontade àquelas aulas inúteis de Danças e Teatros, Educação Moral e Cívica, História e Português. Cheguei até a ficar com algumas meninas, mas quando isso é feito apenas para cumprir uma obrigação social, é ruim, não dá prazer. Isso acontecia no antigo Bar do Geraldinho, na rua Coronel Domingos, onde a juventude se encontrava pra ficar parada na rua e nos passeios bebendo em pé e vendo os carros passarem cantando pneu e fazendo fumaça com o som no talo: mais ou menos o que acontece hoje no Stop & Shop na sexta à noite. Quando eu sentia que minha obrigação tinha sido cumprida, eu saía de fininho, e ainda aproveitava um restinho da noite em casa, assistindo a alguns programas e filmes da madrugada. Com relação a isso, minhas angústias só terminaram em 1992, quando eu comecei a namorar uma menina mais velha, na CEDAF, em Florestal, onde a gente estudava (eu tinha 16 e ela 26), e ela me apresentou à obra do escritor anarquista Roberto Freire, que mudou a minha vida: Cleo e Daniel, Ame e dê vexame, Sem tesão não há solução e Coiote, livros que me mostraram a beleza de ser aquilo que você realmente é, de corpo e alma, sem se preocupar com o que os outros pensam de você. Em 92 e 93 participei de palestras e oficinas do grupo SOMA, fundado pelo próprio Roberto Freire, e aprendi a me conhecer melhor e a valorizar mais minha originalidade única, ligada ao meu prazer de ser e estar no mundo. Minha vida melhorou muito depois disso, mas hoje penso que a utopia anarquista de uma sociedade totalmente livre de qualquer forma de poder e opressão é um sonho impossível. Somos escravos de uma série de convenções e regras sociais, que nos impedem muitas vezes de sentir o verdadeiro prazer de existir. Tais regras são tão implacáveis, que a gente acaba criando para nós uma felicidade artificial, baseada em coisas efêmeras, como “ter aquele carro”, “ter aquele notebook”, “ter aquele cargo”, “ter aquele apartamento”, “ter aquela aposentadoria”, “ter aquele corpo sarado”, “ter aquela mulher gostosa”, “ter aquela mulher rica”, etc., enquanto a nossa originalidade única, a nossa natureza e o nosso prazer (autêntico, verdadeiro) vão ficando em segundo plano, até desaparecerem quase por completo sob o peso da ideologia burguesa e de sua frase mais emblemática: “O importante não é fazer o que se gosta, mas gostar do que se faz”. Só que a gente raramente se dá conta de que esse último “gostar” da frase é, muitas vezes, uma criação artificial, que apaga o nosso ser verdadeiro, o nosso tesão de existir. Prefiro a frase do Caetano: “Um porto alegre é melhor que um porto seguro para essa nossa viagem no escuro”. QUEM É FLÁVIO MARCUS DA SILVA Nascido em Pará de Minas- MG em 1975. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (1997) e doutorado pela Universidade federal de Minas Gerais (2002) com estágio (Doutorado- sanduíche/CAPES) na Universidade de Lisboa- Portugal (2002). Atualmente é Vice- diretor da Faculdade de Pará de Minas- FAPAM-(MG) onde já exerceu os cargos de Coordenador do Curso de História, coordenador do NUPE- Núcleo de Pesquisa, e foi professor nos cursos de História e Administração. Atualmente leciona nos cursos de Direito e Pedagogia. É autor do livro SUBSISTENCIA E PODER: a política do abastecimento alimentar nas Minas Setecentistas (Editora UFMG -2008) e de artigos publicados em periódicos e livros de História. Um de seus trabalhos foi publicado no livro HISTÓRIA DE MINAS GERAIS- As Minas Setecentistas (Editora Autentica 2007) obra vencedora do PREMIO JABUTI 2008 na categoria Ciências Humanas. Atualmente exerce também a função de Pesquisador Institucional da Faculdade de Pará de Minas junto ao Ministério da Educação, sendo responsável pelo acompanhamento dos processos e renovação de reconhecimento dos cursos de graduação da IES. Em 2009 foi eleito para a Academia de Letras de Pará de Minas. www.nwm.com.br/fms

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A IRA - DO LIVRO: OS SETE PECADOS CAPITAIS(2010)-FERNANDO MARTINS FERREIRA

A Ira “A ira começa com o desatino e acaba com o arrependimento”. Hasdai Diz o dicionário que a ira é o intenso e descontrolado sentimento de raiva, ódio, zanga, indignação, desejo de vingança, paixão desenfreada que nos incita contra alguém ou algo. Esses sentimentos estão estritamente associados à desonra, brigas e desavenças de toda a espécie. É preciso distinguir entre ira e cólera, raiva e ódio. O ódio e a raiva de certa forma são a ira reprimida e são emoções destrutivas. A ira provoca maus pensamentos fazendo com que muitas vezes façam acusações injustas gerando com isso brigas e desavenças. Na verdade por baixo de toda a ira quase sempre detectamos medo. O medo de errar, de expressar, de perder espaço, enfim, ao invés de parar, pensar ou até mesmo temer, as pessoas atacam para se defender. Cada um de nós, se analisarmos com cuidado, já tivemos um tempo de ira e se pensarmos bem podemos cultivá-la dentro de nossa casa assistindo a filmes de extrema violência e crueldade, de heróis sanguinários que matam centenas de pessoas para vingar ofensas e injustiças. Nós e nossos filhos vamos dessa forma nos programando para reagir e as vezes somos levados ao arrebatamento que se traduz em berros e desaforos. Não se iluda, caro leitor, a inquietação é a variação do temor, do medo e ela também destrói a saúde física, a paz espiritual provocando conflitos. A Bíblia nos ensina: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre vossa ira” (Efésios, 4;26). Já em Provérbios 22, versículos 24 e 25 temos: “Não te associe-se com o iracundo, nem andes com o homem colérico, para que não aprendas as suas veredas e assim enlaces a tua alma”. Iracundo é aquela pessoa de cara amarrada, fechada que não esboça sequer um sorriso, que parece estar chupando limão dia e noite. É com certeza um ser azedo. Se dorme durante o dia, acorda mau humorado e com três pedras na mão e se não dorme, fica mau humorado por isso. Essas pessoas, sinceramente, me aborrecem e me cansam. Fazem como dizia Oduvaldo Viana Filho: “Do medo de viver um espetáculo de coragem”. Estão sempre em posição de combate vendo o mundo como adversário. Não olham para frente, vivem lutando contra quimeras, falta lhes o equilíbrio, bom senso e serenidade. A ira atenta contra os outros mas pode voltar-se, contra aquele que deixa o ódio plantar semente em seu coração. Existe o registro que em 1879, o professor Gates da Universidade de Harward nos Estados Unidos, apresentou os resultados de um experimento sobre os liquefeitos obtidos pela condensação do ar expelido pelos pulmões de um paciente. O seu experimento constituiu em introduzir um tubo de borracha na boca do paciente colocando a outra extremidade desse tubo dentro de um liquido químico que continha uma mistura de um iodeto com outra substância. O tubo de borracha foi resfriado de tal modo que o ar que saísse dos pulmões se condensasse ao passar por ele (o ar era mais quente) e pingasse dentro do líquido químico. Enquanto o paciente estava calmo e feliz, não houve nenhuma alteração no líquido químico, entretanto, quando foi provocada uma ira repentina no paciente, formou-se um precipitado de cor castanha dentro do recipiente com a mistura química. Dando sequência ao experimento, o professor Gates injetou o sumo obtido em pessoas e animais e constatou surpreso que eles ficavam excitados e nervosos. Comprovou assim que a ira produz substancias tóxicas ao organismo, as quais são expelidas até pela respiração e se essas toxinas passam pelos pulmões, é certo que causam danos a eles. Podemos comparar a toxina produzida pelo organismo humano nos momentos de ira ou de temor ao veneno que a cobra cascavel expele das presas quando ataca a vítima. Só que a cascavel possui uma bolsa para armazenar esse veneno, o qual é eliminado do organismo, enquanto no corpo humano não existem reservatórios desse tipo. Logo, no homem a toxina formada pela ira ou temor acaba circulando por todo organismo, prejudicando a si próprio. Veja o seguinte exemplo: Desde a infância Martim Luther King sofreu os rigores da discriminação racial. Seu filho Martim Luther King Jr. abraçou sua causa em favor dos direitos civis dos negros e foi assassinado em 1968. Um ano depois outro filho de King morreu afogado em uma piscina. Em 1974, novo golpe, sua esposa foi abatida por uma saraivada de tiros, disparado por um jovem enquanto tocava piano em pleno culto de sua igreja. Em 1984, perto de morrer aos 84 anos o velho King disse: - “Há dois homens que eu deveria odiar. Um deles é branco e o outro é negro, e os dois estão cumprindo pena por homicídio. Não odeio nenhum dos dois, não há tempo para isso, também não há razão. Nada pode rebaixar tanto um homem quanto ele se permitir decair a ponto de odiar alguém”. Como temos que exercitar a serenidade e o perdão! O interessante é que mesmo após 2000 anos da vinda do mestre dos mestres que nos ensinou a serenidade, o perdão e o amor incondicional não conseguimos fazer isso naturalmente. Porque ainda então sentimos que nossa raiva é desproporcional, a reação é desproporcional? Por que sentimos às vezes tão sensíveis a hostilidade humana a ponto de qualquer sinal da pessoa com a qual estamos interagindo ficamos alerta de sobre aviso como uma fera? Às vezes basta um olhar ou o tom de voz, um gesto para que reajamos e nos tornemos agressivos, para que a ira se manifeste. Nos sentimos agressivos, temos enorme dificuldade em perdoar o agressor. A única maneira de invertermos essa poderosa força negativa é com certeza buscarmos desenvolver virtudes de temperança e paciência.